A periferia das cidades - um território mestiço onde a paisagem urbana se dilue na paisagem natural - é um dos temas estrelas da fotografia contemporânea na última década; milhares de fotógrafos em todo o mundo tem se aproximado destes não-lugares que abundam em todo tipo de civilizações. Sem dúvidas, Pedro David esquiva-se das representações já estereotipadas e empreende uma viagem, minúscula em suas dimensões geográficas, na qual se transparece sua própria experiência e se reconhecem, entre outros, os ecos da literatura, da pintura, da escultura e do land art.

Pedro David alinha-se com uma posição situada nas antípodas da obsessão pela objetividade. A descrição da praxis tipológica é grata ao pensamento protestante, mas como sustenta John Berger, “as palavras nunca abrem por completo a função da vista. A contemplação tem uma primeira fase admirativa que torna-se introspectiva uma vez que completa-se a visão do cenário. Nunca vemos apenas uma coisa, sempre vemos a relação entre as coisas e nós mesmos”.

A proposta visual que Pedro David faz a partir de seu entorno mais próximo não se limita a denúncias peremptórias sobre a perverção de nossa relação com a natureza. Em certo sentido critica o fracasso do projeto vital do homem moderno. Agora que desde a universidade se está voltando o olhar sobre a experiência sensível que obtém seu contexto na história da cultura, não parece selvagem incluir a arte como mais um dos elementos necessários para se aprofundar nesse contexto.

A viagem de Pedro David pelo Jardim nunca aspirou as soberbas dimensões dos Cartógrafos de Borges, mas bem tem percorrido alguns pedaços deste Mapa; mas é certo que essa travessia imaginária em que o tempo orbita sem cessar entre o passado e o presente, como diz João Guimarães Rosa, “durou um instantezinho enorme”.

Terra Vermelha.  A viagem de um cartógrafo discidente

 

Alejandro Castellote

Fragmento - Escrito para o livro O Jardim 2012

Baixar texto integral (pdf)