Sonhâmbulo

Rui Cezar dos Santos

Fragmento

Escrito para o livro Rota Raiz - 2013

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A fotografia tem tido, desde a invenção, uma profícua parceria com viagens, sendo até mesmo seu leitmotiv. Tal associação não apenas trouxe ao conhecimento geral as regiões sagradas, míticas, exóticas e economicamente cobiçadas, como também presenciou as últimas expedições de descoberta do planeta, dos polos da terra, e por fim da lua e do cosmos. Na maioria viagens de descobrimento topográfico e étnico, e decorreu pelo menos um século até que os procuradores de imagens abraçassem opções subjetivas, portanto individuais[1]. Nestas, as superfícies descritas correspondem de algum modo à ideia ou ao conceito do equivalente (de emoções, desejos, sonhos ...).

O termo e a atividade do turismo derivam da grand tour, viagem empreendida por jovens britânicos que, concluída a educação formal, rumavam para o continente para adquirir experiência e conhecimento das civilizações continentais, o berço da humanidade. Tratava-se do início de uma vida adulta e produtiva, de amadurecimento, agora ponderada através da ontologia apreendida in loco.

ROTA RAIZ é sobre viagem e ontologia pessoal, uma série de viagens fotográficas à cata de revelações e confirmações de uma ascendência rural e das estórias, a ela conectadas, ouvidas na infância e adolescência. Pedro David é neto de uma família do sudoeste baiano, Jacaraci, filho de um pesquisador cujo trabalho provocador, de cunho social e político, foi realizado em Juramento, no Norte de Minas (como integrante de equipe do CETEC), e de uma doutora expert em inscrições rupestres. Por um lado, passava férias no sudoeste da Bahia. Por outro era realimentado pela narrativa paterna de vívida experiência interventora e de seus encontros com pessoas, bichos, relações de troca, poder e fé. Na adolescência, por amorosas histórias extasiadas de iluminuras pré-colombianas relatadas pela mãe.

O Norte de Minas e o Vale do Jequitinhonha formam, assim, uma questão singular, eximidas, pois, as questões obrigatórias de uma fotografia aplicada, o fotojornalismo. Que, afinal, quase sempre substitui a pobreza pelo pobre, este último fácil de identificar, assediar, espionar. Num sentido comum aos grandes viajantes, antes da viagem é necessário formular a pergunta que a viagem endereçará. Em ROTA RAIZ, esta é a comunhão com experiências vividas, direta e indiretamente, quando ainda trajava calças curtas. Enriquecidas por coleções de facas, canivetes, de segmentos de bichos e répteis, de objetos da cultura e imagens presenteadas pelos pais, ambos operadores bissextos de uma Nikkormat.

 De monta também a leitura dos viajantes, Burton, o deliciar-se com Guimarães Rosa e Os Sertões e a apavorante história de Lampião, leitura recorrente. Ah!, e On the Road, o primeiro livro comprado, aos quatorze anos, com grana própria.

Quem procura (e sabe o quê), acha.

Decorridas aproximadamente três décadas desde a pesquisa paterna, as regiões do norte do estado já haviam sido brutalmente assediadas, invadidas, violentadas. Eucaliptos, carvoarias, televisão, som, garimpo e quatro rodas compõem o juggernaut desgraçado. O fotógrafo se viu logrado, mas não vencido: observou este processo de terra arrasada através de suas consequências no cotidiano. Ninharias tais como toalhas estampando mulheres peladas, camisetas reclamando em inglês, aparelhos de TV, minissaias, blusões de couro, e cores pós-modernas, gaias, sobrepondo-se ao azul, vermelho, rosa e verde da herança colonial e higiológica. Neste sentido este livro se aproxima do trabalho de Edward S. Curtis fotografando as brutais mudanças impostas aos indígenas americanos, então já uma cultura em desaparecimento.