Embora intitulada “Garrafa”, a imagem possui dois protagonistas: o primeiro, a garrafa propriamente dita, de vidro incolor e transparente, sem relevo ou rótulo, apenas fechada com uma tampa rosqueada de metal prateada ou dourada, não se sabe, pois a imagem é em preto e branco, apoiada rente à borda lateral de uma prateleira, de um vidro claro e transparente como ela, engastada numa parede branca. A garrafa está quase cheia de água, o que se nota pela linha do plano do nível do líquido próximo da altura em que o recipiente começa a se afunilar. Essa linha interna e horizontal é suave, como é comum aos limites das coisas incolores e transparentes, o que não os impede de acusar reações tão variáveis quanto sutis, por exemplo, a luz que vem do lado esquerdo incide sobre o corpo de vidro sob a forma de uma fímbria vertical que parece rasgar a garrafa de cima a baixo; sua extremidade inferior que, conquanto do mesmíssimo material, é demarcada por um contorno quase preto; as linhas discretas retilíneas e incisivas que perfazem a porção vista prateleira de vidro.

 

E agora seu segundo protagonista: uma linha grossa e escura, nítida a ponto de não se saber se é corte, rachadura ou risco de lápis preto de grafite macio, talvez um 2B, que parte da diagonal superior esquerda da imagem, uns seis, sete centímetros abaixo do vértice, para atravessar a parede passando por detrás da garrafa, alcançando e ultrapassando a prateleira, até morrer, já esmaecida pelo efeito atenuante do plano de vidro, um pouco acima do vértice da imagem.

 

Porém o punctum da imagem, para utilizar o termo empregado por Roland Barthes em A Câmara Clara, referindo-se ao elemento que, em uma boa fotografia, fere, pica o espectador – será melhor ouvir o próprio Barthes: “[aquilo que] parte da cena, como uma flecha, e vem me transpassar”; pois o punctum da imagem, dizia, acontece na sobreposição desses dois protagonistas, da linha e da garrafa, da linha e do volume, com a garrafa obrigando, ou revelando, uma graciosa e inopinada pirueta da linha, um passo executado sob o efeito da distorção causada pela refração da luz pela água.

 

A linha vinha baixando decidida, descrevendo um traçado diagonal, quando bruscamente interrompeu sua marcha. Desapareceu no ar para reaparecer dentro da garrafa logo abaixo da altura do traçado original, empinando-se numa diagonal divergente. Retoma em seguida, ainda que por poucos centímetros, a diagonal mãe, mas não consegue levar o rumo adiante, talvez porque não queira, arrancando mais uma vez na mesma direção divergente anterior, apenas que curvando-se, enleando-se ao corpo cilíndrico do vasilhame, como que seduzida por essa outra senda, nova e sinuosa, nela desaparecendo. Porém, mais uma vez repentinamente, ressurge mais abaixo, definitivamente na direção principal, como se a extraordinária ocorrência não houvesse passado de um contratempo fugaz, como se o seu encontro com um objeto a tivesse despertado, como se ambos tivessem resolvido dançar, uma dança breve e curta, mas frenética, como um equilibrista dança com a corda que o sustenta.

 

Pois bem, a coisa toda –“Garrafa”- não se resume a isso, o que nos leva a admirar as várias peças dos jogos propostos por Pedro David, fotógrafo, escultor, gravador, além de colecionador, etnógrafo, arqueólogo, arquivista e sabe-se lá o que mais inventará em suas proposições destinadas a investigar o sentido profundo do que chamamos real.

 

Há ainda o campo no qual essa imagem está impressa, além do modo como ela está impressa. Trata-se, afinal, da fotografia de uma folha de caderno de desenho arrancada com as marcas laterais do filme que a registrou, como as imagens de antigamente que traziam as bordas escuras dos limites dos fotogramas revelados? O desenho da linha, ela própria convertida em imagem, convive com a imagem da garrafa, mas agora já não se sabe se o desenho foi feito sobre a parede detrás da garrafa ou sobre o papel que recebeu a imagem da garrafa. Colabora para essa indefinição o modo como a linha progride para debaixo da prateleira de vidro, descontínua e apresentando comportamentos, direções aparentemente inverossímeis. E o que dizer da lateral esquerda da imagem, com as perfurações regulares típicas de um caderno espiral, ao lado das perfurações obliteradas, características dessas mesmas folhas quando arrancadas? Note-se a sombra que essas perfurações produzem no papel; o plano comprido semelhante aos vestígios de uma faixa de fita crepe distendida e parcialmente arrancada, também deitando sua sombra sobre o plano de papel que lhe vai por baixo; as marcas retangulares similares às de uma matriz de gravura a metal, como que acompanhando os limites do campo onde está a imagem; perceba-se, por fim, o modo como que o campo da imagem progride do branco ultra claro, borrifado, pictórico, que ocupa todo seu lado esquerdo, até o branco sujo, borrado, enodoado de sua porção direita.

 

Quantas sutis e misteriosas ambiguidades podem caber em cada uma das imagens e em cada um dos objetos do outrora exclusivamente fotógrafo Pedro David?

 

Sempre fotógrafo, Pedro David sai todo dia de casa e, como qualquer um de nós, vai vendo o que há. É inevitável e acontece com todos, mas com ele se dá diferente posto que está sempre a espreita. As coisas, como se sabe, não se dão por inteiro, mostram-se apenas pela aparência imediata, o que é muito pouco, quase nada. O resultado disso é ter-se o mundo na conta de desvendado ou, pior, como algo que não estivesse permanentemente grávido de mistério. E o problema é que ele está. O fotógrafo sabe disso e por isso está sempre a espreita. Armado de atenção, captura, revela, constrói esses encontros, pequenos, esses pequenos milagres.

 

* Uma pequena homenagem à Julio Cortázar

Lições de uma Garrafa, ou o Milagre Aconteceu Agora*

Agnaldo Farias

Escrito para a exposição 360 Metros Quadrados, na galeria Blau Projects, São Paulo, 2016